Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Winter Solstice

 

Hoje a Lua vai esconder-se. Como eu faço, às vezes. Debaixo dos lençóis. Porque o dia nasceu e eu não queria.

A partir de amanhã não posso mais ignorar que é Inverno. O meu Inverno. Que vi as coisas morrer porque só da morte é que voltam reconstruídas. Todas as coisas, minhas e dos outros. E este não é um mau Inverno, não perco de vista o hemisfério Sul. Mas a verdade é que eu não sou uma andorinha. Na realidade, nem tenho a certeza de que tenha asas.

 

O frio encolhe tudo, como o calor dilata. E eu sou mais pequena quando está frio. Pés (que são o coração) debaixo da lareira (que é um sorriso ou uma mão que passa leve nos cabelos), sonhos dentro de cascas (como ovos dos pinguins), as palavras que não se dizem (que são flocos de neve que só podemos ver enquanto caem).

O meu Inverno está frio mas é mais por fora. E eu também quero folhas novas. Porque a vida é um jardim. No Inverno como na Primavera.

 

Artwork: Garden of Earthly Delights, 1503-1504, Hieronymous Bosch (centro do tríptico)

libra às 23:05
| starstruck?
Domingo, 5 de Dezembro de 2010

We are all made of tiny dots

 

Viajo para trás no tempo e vejo os pontos em que me cruzei com o futuro. Não o via, não podia saber que estava lá mas era isso, o futuro.

Em linhas que li e escrevi algum espírito mais atento poderia tê-lo visto e ter-me avisado. E faria diferença eu estar preparada? Nenhuma.

Porque os sentimentos que nos afectam são os do presente, os que sangram e sorriem hoje e agora.

Quantas vezes me entrelacei no que haveria de ser?

 

Infindável espanto de ser humano. Humana. De ser eu e ter de sê-lo todos os dias sem saber como, a maior parte das horas. Voltar ao espelho das pupilas dos outros, o único em que confio para desenhar uma imagem de mim, o único que ao mesmo tempo os meus olhos se recusam a ver.

Não cresço. Envelheço? Isso talvez. Inevitavelmente, suponho. Os aniversários não passam de contagens regressivas. Mas também aprendo, embora me repita anacronicamente nas minhas próprias reflexões que ambiguamente publico esperando que ninguém leia ou comente. Porque há partes de mim que não sei senão manter fechadas. Shhh...

Escrevo como há doze anos, como há 15 anos, como há 2 anos, como há 2 horas. Por mais premiados que leia, não sinto a linguagem alterar-se, não se me eriçam os pelinhos do antebraço com efusivas evoluções, é mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo. Palavras boas para se encadernarem em capa dura, com títulos de letra romântica em itálico e a negrito, seladas com fitinha de cetim escarlate.

Não é isso que quero. Queria conseguir escrever para me ler, a mim própria. Para entender como as linhas em que hoje me entrelaço fazem a malha do que vai acontecer amanhã.

 

Artwork: Gray Weather, Grande Jatte, 1888, Georges Seurat

libra às 01:18
| starstruck?
Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

Desconstrução

 

Não quero um T3 duplex com chão de parquet e acabamentos de luxo. Quero uma casa que me ensine coisas e comprar mobília no antiquário e retalhos de tecido para mandar forrar os sofás de uma avó qualquer. Não quero bilhetes na mesinha de cabeceira "Amo-te muito bébé". Quero senti-lo na nuca mesmo antes de acordar. Não quero férias no campismo e fotografias de grupo com caras sorridentes. Quero fins-de-semana à deriva por estradas nacionais e retratos de sentimentos reais. Não quero ir todas as semanas ao cinema ouvir a trituração mandibular de pipocas. Quero encher a casa de livros e ter tempo para lê-los. Não quero reclamar da vida, do preço da gasolina, da conta da luz, dos impostos, taxas, portagens, de políticas podres. Quero o sangue a correr-me nas veias em pautas, chorar em claves de sol e de fá e rir em sinfonia para não esquecer nunca que a música é dos bens mais preciosos. Não quero uma escala de tarefas pôr-a-mesa/despejar-o-lixo/levar-o-cão-à-rua/hoje-é-a-minha-vez/hoje-é-a-tua. Quero o wow pirotécnico no estômago, coração não subas tanto que não respiro, mal-me-quer, bem-me-quer todos os dias. Não quero um "está tudo bem". Quero um "deixa-me em paz" se tiver de ser. Nem sei se quero ser feliz. Mas quero continuar a tentar.

 

Artwork: Number One, 1948, Jackson Pollock

libra às 23:14
| starstruck?
Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

accidents don´t wait, they just happen

 

 

A vida encadeia os acontecimentos como se fosse um fio com nós. Que faz uma meada. E que durante os dias nos obriga a desentrelaçar para formar um novelo. Um novelo é um emaranhado com lógica, princípio, meio e fim.

 

Eu contento-me com a meada. Eu gosto de fios aos bocadinhos. Para fazer cabelos para as bonecas de pano.

E faço mais nós do que o fio precisa.

 

Às vezes também me apetece gritar e nao grito, sorrio só. Só.

 

Há dias em que eu, como todas as pessoas, não quero ser eu e fujo a correr de mim. Mas depois páro, a meio de uma ponte qualquer entre mim e os outros e penso que não vale a pena.

 

Ponho as lentes cor-de-laranja para ver o mundo mais alegre e funciona. Mas como ando de óculos ninguém parece saber realmente como sou.

 

 

Artwork: Skrik, 1893-1910, Edvard Munch
libra às 23:40
| starstruck?
Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Abstract

 

Apenas uma ideia distraída. De como as folhas lá fora combatem o vento. De como o Sol pode ser tão frio.

Apenas um conceito absorto. De existência em equilíbrio. De inércia invisível.

 

A liberdade prende-me os movimentos.

Estou mas não sou e quando dou por mim, já fugi para outro lugar qualquer. Viajo à velocidade da mudança, passo pelos outros. Escondo-me, não quero ser encontrada, não quero encontrar. Tenho medo, mas é isso que me torna corajosa.

 

Não sorrio. Não choro. Sou um quadro abstracto que podes pendurar em qualquer parede, em qualquer mural.

Cada um tenta compreender à sua maneira, as linhas que traço com as palavras, com os olhos, e eu sei que todos vêem qualquer coisa de diferente.

 

Cada dia que passa traz outra cor, outra pincelada, outro elemento à composição. Vai ficando mais complexa, mais densa. Mais interessante, mais artística. E mais distante.

O segredo de ver com o coração é que permite que eu permaneça onde estou, embrulhada em amigos e a dar pequenos passos em direcção a mim.

Artwork: Composition VIII, 1923, Wassily Kandinsky
libra às 19:00
| starstruck?
Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

Love is an impossible adventure

 

 

Respecting, being loyal, maintaining friendship above all, sharing, giving space, appreciating, enjoying big and small things, seducing again everyday, staying silent, telling the truth about everything, especially when the truth is sure to hurt, being tough, being gentle, tolerating, being present, completing, having fun, growing together, agreeing to disagree, reinventing.

 

 

 

Bringing out the best, listening, getting wild once in a while, learning, encouraging the best, dreaming, landing, memorizing details, improving, orienting, letting go, paying attention, overcoming, leaning, believing, exploring, getting it right, trying, helping, worrying, losing control.

 

 

 

I have no idea what that love is.

And maybe that kind of love just is not.

 

 

 

Artwork: Las Dos Fridas, 1940, Frida Kahlo
libra às 01:45
| starstruck?
Sábado, 12 de Junho de 2010

growing old is mandatory, growing up is optional

 

 

Se estranhares o silêncio dos meus passos é porque estou a andar mas não saio do mesmo sítio. Não te inquietes. Fecha comigo os olhos e imagina uma daquelas passadeiras, como há nos aeroportos ou nas estações de metro, que nos transportam sem precisarmos de mexer os pés, a ser construída por baixo dos meus.

 

Decido não procurar mais definições, estender os braços como ramos e deixar que o vento me leve para onde eu tiver de estar.

A velha que um dia fui e ainda vive cá dentro às vezes reclama, quer sempre mais, é alérgica à simplicidade, recusa-se a apenas sentir, diz-me que tem de entender. Mas mando-a calar, eu não sou como ela, sou complexamente simples, dou-lhe para a mão um bordado ou um empoeirado álbum de fotografias e ela sossega. No fundo sei que só precisa de estar ocupada, de sentir que ainda pode ser útil, para que, graças a ela, eu não repita os mesmos erros que a levaram a passar pelos anos como um diamante por lapidar.

 

 

E porque insistem os outros em ver-me como se vê um amigo imaginário, cuja presença todos, menos eu, parecem detectar?

Como se fosse, em vez do ser racional que sou, a única que fica tonta com o movimento de rotação do planeta.

Sou uma equação à qual faltará sempre uma variável para que produza um resultado lógico, possível de explicar. Matemática incompleta.

Uma promessa sempre por cumprir, no silêncio absoluto dos passos parados, no chão deste vazio onde às vezes me sento a evitar o pensamento, buraco branco, porque só a união de todas as cores pode levar-me a um vazio tão cheio de ideias, pessoas, sentimentos, possibilidades. E essas malditas expectativas.

 

Foi para lutar contra elas, as expectativas, que a velha dos bordados e das fotografias desbotadas me emprestou a mesma espada com que um dia lutou pelos seus sonhos. Não a queria desiludir, sei o que espera de mim, ser ela reinventada, trazer nos ombros, nas costas, nos cabelos, a responsabilidade de realizar esse potencial que ela também falhou em concretizar. 

Só não entendo como é que esta velha não vê que foi por esperar coisas, tantas, de si própria, do mundo e dos outros, que ela envelheceu tão depressa e teve de transformar-se em mim.

Artwork: " Whistler's Mother", 1871, James McNeill Whistler
libra às 03:07
| starstruck?
Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Lisbon State of Mind

 

Uma Nova Lisboa. Que me abriu as portas do castelo, sem me fazer amaldiçoada princesa.

Que se ilumina de sorrisos, mais do que de sol.

Que me recebe de Lua Cheia, re-don-di-nha, absoluta de magia porque afinal amanhã não é tarde demais. Amanhã pode muito bem ser a tempo.

 

Desço a Avenida, muitas pessoas, muitas pessoas, em Lisboa há pessoas de todas as cores, é como se o meu mundo fosse menos monocromático a sul. Espreito o rio, para mim este rio é imenso, é um continente de água. Subo atrás do 28, sinto-me segura, olho à volta com olhos tontinhos de turista mas o meu coração medieval não estranha as paredes de Alfama.

 

Lisboa deu-me a mão. Não por medo de eu me perdesse nas ruas, no meio das muitas pessoas. Deu-me a mão para me fazer sentir parte dela.

 

Obrigada Lisboa, por não seres só menina e moça, mas por seres também a venerável anciã, que tem sempre mais uma arca no sótão com tesouros por descobrir. Até já...

libra às 17:25
| starstruck? | (1)
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

No Disney Princess!!

Tenho mau-feitio natural. Ressono muitas vezes enquanto durmo e rosno para toda a gente depois de acordar cedo e até tomar café.

Calço 38 e com o jeitinho que tenho para andar de tacões, partiria o sapatinho de cristal em 10000 estilhaços assim que pusesse a pata fora da carruagem. A minha madrinha não é uma fada, é parte de um duo de música popular portuguesa e a única varinha mágica que tem é a caneta para escrever letras como "Passear contigo, amar e ser feliz".

Não me dou bem com a lida da casa e jamais seria enganada por uma velhinha com uma maçã. Não tenho rabo de peixe e o meu único "amiguinho animal" é uma gata insuportavelmente chata que o meu fiho mais velho me impingiu. Falo sozinha mas não varro a cozinha a cantarolar e a fantasiar um futuro melhor.

O único anão que conheci era o Márcio, da minha turma do 5º ano, mas nunca me deu guarida em casa dele, que não era na floresta mas ao lado do campo de futebol de Oliveira do Douro. Sim, sou morena e gosto de andar descalça mas marinheiros loiros de olhos azuis não são o meu género. Pronto, ok, gostei dos castelos da Baviera. Mas não ia morar para lá!

Odeio cor-de-rosa, coisinhas cheias de brilho, não uso maquilhagem e tenho o cabelo sempre num desalinho. Não tenho modos delicados, não choro por degostos de amor, gosto de ver futebol e beber cerveja e nunca, NUNCA, nem sob ameaça de morte, daria um beijo num anfíbio. Não sou, nem quero ser.

Dispenso que me venham salvar das garras da bruxa. Dispenso currículos cheios de prince-like qualities. Os príncipes da Disney são todos uns panisgas idiotas.

Excepção feita ao Aladino, que apesar de também ter ar de parvo, pelo menos tinha um Génio às ordens dele e um tapete que me dava jeito cá em casa.

libra às 19:23
| starstruck? | (2)
Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Change

"Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades."
 
excerto de soneto de Luís de Camões
 
Não, não quero as mágoas do passado que me pesam às costas como anos mal vividos. Olho em frente e o que vejo são sorrisos, pequenas conquistas, gotas de suor de árdua sementeira e lágrimas de alegria no tempo da colheita.
Reinventei os dias tantas vezes... Não perdi a capacidade de me surpreender com o que encontro pelo caminho, bom ou mau, mas já não espero tanto. Continuo a sentir o sol e o vento na pele e ao mesmo ritmo, ora lento ora veloz, a que passam os dias, vou descobrindo uma menina que já não sou. Tenho saudades. Sobretudo das oportunidades que deixei passar, sem sequer as prender por um fio, para que estivessem lá quando eu estivesse pronta. Mas apesar de me fazer granito, sou sensível à erosão que os sentimentos provocam.
Diagnóstico... Cresci, de muitas maneiras, ganhei e perdi amigos, colei os pedacinhos estilhaçados de coração, procuro a coragem que às vezes se esconde no núcleo das células. No universo nada se perde. Eu também não me perdi mas encontro mais um pouco de mim todos os dias.
Ler mais, fazer mais, substituir os vícios insalubres por outros mais produtivos, manter as boas influências e, a tanto custo às vezes, afastar as más. Não deixar de acreditar. Escrever. Lembrar os sorrisos das estrelas quando o meu esmorecer. Transformar o potencial em real. E aprender sempre.
 
O mundo é composto de mudança. Eu também.
 
libra às 01:39
| starstruck?
 

Stardust

Winter Solstice

We are all made of tiny d...

Desconstrução

accidents don´t wait, the...

Abstract

Love is an impossible adv...

growing old is mandatory,...

Lisbon State of Mind

No Disney Princess!!

Change

Dezembro 2010

Novembro 2010

Junho 2010

Maio 2010